A mais recente edição da revista internacional Monocle colocou Lisboa no topo das capitais mais soalheiras da Europa. São ao todo 3023 horas de sol por ano!!! Uma maravilha! À frente da vizinha Madrid (2910 h/ano) e da mais longínqua Viena (2204 h/ano), embora seja de estranhar que Atenas não seja mencionada... Talvez porque em índices de qualidade de vida e de bem-estar Atenas não esteja, atualmente, em condições de sequer se apresentar como candidata.
Em todo o caso, com ou sem Atenas, a verdade é que todas as antenas dos sunseekers começam, cada vez mais, a apontar para a velha Lisboa. E os confrontos populares e armados além fronteiras têm vindo a dar uma ajudinha preciosa ao turismo e ao comércio nacional. Istambul foi a última grande cidade a ceder terreno para a capital portuguesa. A pérola do Bósforo tem vivido tempos conflituosos difíceis de conciliar com as visitas de viajantes estrangeiros.
A Convenção do Rotary International é a mais recente conquista lisboeta no que toca a organização de eventos. Com mais de 25.000 inscritos provenientes de cerca de 160 países, este acontecimento provocou uma tremenda enchente nos hotéis da cidade e, certamente, também nos restaurantes e lojas dos locais mais apetecíveis da capital.
Na realidade, os grandes eventos não são a solução para os problemas económicos, mas acabam por dar uma pequena ajuda, que deve ser aproveitada. O exemplo mais claro é o caso do Brasil. A pouco tempo de receber as Jornadas Mundiais da Juventude, o Campeonato do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos, depara-se com um descontentamento social generalizado de um povo que, após as conquistas dos últimos anos, assume que não basta gastar - ou investir (depende das perspetivas) - em grandes eventos para fazer um país avançar. Do outro lado, Aécio Neves, o novo presidente do partido da oposição - o PSDB de Fernando Henrique Cardoso e José Serra - abandonou os discurso batido da esperança, para passar a utilizar outro termo, que há muito tinha sido abandonado, mas que talvez agora comece a fazer sentido: a "utopia".
Mas longe dessas questões, voltando à nossa realidade - e à lista da Monocle das 25 cidades com melhor qualidade de vida -, valerá a pena pensarmos quais as razões pelas quais Lisboa não entra nessa elite. Recordando que, aqui mesmo ao lado, Madrid ocupa a 18.ª posição (subiu duas face a 2012) e Barcelona a 21.ª (manteve), porque será que Lisboa - a capital europeia do sol, repleta de cafés e esplanadas, refletida no Tejo e a tão poucos minutos das ondas do oceano, sem demasiados habitantes - está ainda tão longe dos primeiros lugares - 1.º Copenhaga, 2.º Melbourne e 3.º Helsínquia?
Aqui vão os critérios de ponderação:
- população;
- n.º de voos internacionais;
- horas de sol;
- temperaturas;
- tolerância;
- taxa de desemprego;
- pontos de carga para carros elétricos;
- cultura (museus, cinemas e teatros);
- livrarias;
- espaços verdes;
- futuras iniciativas de desenvolvimento;
- street life (cafés e comércio para um passeio ao ar livre);
- jantar ao domingo (restaurantes e supermercados abertos).
Dá para entender os motivos pelos quais não estamos nem nos 25 primeiros. É que até podemos ser campeões em alguns indicadores, mas ainda falta a Lisboa muito trabalho - e sério! - para roubar os lugares a Düsseldorf (25.º), São Francisco (24.º), Portland (23.º) ou Amesterdão (num intrigante 22.º lugar). Cumpre salientar que, curiosamente, as cidades italianas também não convenceram o júri.
Torna-se, assim, fundamental olhar para o que de melhor se faz no mundo no âmbito da promoção da qualidade de vida e da regeneração urbana. Mas não nos poderemos limitar apenas a copiar o que os outros fazem, como já tem vindo a tornar num hábito recorrente por terras lusas. Sem esquecer as nossas características, as nossas especificidades e as nossas qualidades - que são muitas -, é nossa obrigação fazer ainda melhor que os outros.
Embora saibamos que é possível conquistarmos um lugar no Top 25, fica a certeza de que ainda é preciso bastante trabalho para aprimorar este tão peculiar alfacinha style!